Especialistas visitam açude de Boqueirão e confirmam situação crítica

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José Firmino morou mais de 50 anos em Boqueirão. Aposentado, hoje contempla o açude da cidade. O pedreiro, que antes pescava, relembra momentos de alegria e fartura e diz que nunca viu o manancial assim.

– A gente era rico e não sabia, a gente era uns pobres ricos, a gente tinha feijão, a gente criava bicho, a gente tinha verdura,a gente tinha tudo, a gente tinha água a vontade. Hoje ninguém cria nada, nem tem peixe, nem tem verdura, nem tem mais nada. Nem água tem – lamentou José.

A mesma sensação tem José Gildo, o pescador lamenta a situação do açude, e está trabalhando com outras atividades para sobreviver.

– Primeira vez que eu vejo o açude tão baixo quanto está hoje em dia. Nós que somos pescadores mesmo que vivemos da pesca, sobrevivemos fazendo outras coisas, porque só a pesca não dá.  – comentou o pescador.

Conforme dois especialistas em recursos hídricos, havia várias ilhas e morros que normalmente ficavam encobertos pela água. A Ilha Maravilha, a maior, com mais de 90 hectares, está totalmente descoberta.

Segundo um dos especialistas, o açude apresentaria apenas quatro ilhas, hoje, na capacidade em que se encontra, quinze são visíveis. Inclusive, um deles ressaltou que o momento é histórico. Triste, por um lado, mas na medida em que o açude vai baixando, novas descobertas vão sendo feitas.

Para se ter uma ideia exata de como está a situação do açude de Boqueirão, em uma rocha foi colocado um sinalizador pela Marinha, para evitar acidentes, porque normalmente as pessoas não conseguiam ver a rocha, mas pela primeira vez na história, desde que o açude foi inaugurado, em janeiro de 1957, essa rocha pode ser vista totalmente.

A rocha está tão exposta, que um grupo de pescadores consegue sentar tranquilamente para pescar e, apesar de comemorarem a pesca, não escondem a preocupação com o nível da água.

São dois rios principais que trazem água para esse açude, e um dos especialistas comenta a situação deles.

– Os principais rios, o Paraíba e o Taperoá, são seus principais afluentes. Então, o que ocorre? Os meses de Março e Abril são os meses que mais chovem, segundo a meteorologia e, por incrível que pareça, Boqueirão até hoje só pegou 6 cm de lâmina d’água. Então, é muito pouco, diante da pujança desse açude e diante das demandas que ele atende. – completou.

De acordo com especialista em recursos hídricos, Isnaldo Costa, faltam 17 metros de lâmina d’água para o reservatório voltar a sangrar.

– É bom frisar também, para que vocês tenham ideia, faltam 17 metros de lâmina d’água para esse açude. Então, tem que ser muita água. Nós já estamos no fim das quadras chuvosas, segundo a meteorologia – afirmou.

As bombas do sistema de captação flutuante estão prontas para começar a funcionar a qualquer momento. A torre de comando faz o bombeamento da água para o abastecimento dos municípios e também na história do açude do Boqueirão ela nunca tinha sido vista em toda sua totalidade, mas agora, é possível vê-la e vai chegar um momento em que a água não vai chegar mais aos tubos de bombeamento da torre e é quando o sistema de captação flutuante da água, que já está funcionando, em fase de testes, vai funcionar efetivamente.

De acordo com Isnaldo Costa, o açude Epitácio Pessoa tinha apenas 39 milhões 18 mil 105 mil metros cúbicos de água, o que corresponde a 9,51% da sua capacidade total que é de 411 milhões 686 mil 287 metros cúbicos.

Para ele, que monitoria o manancial há mais de 20 anos, a situação é extremamente crítica. Emocionado, ele faz um apelo às autoridades políticas.

– Eu estou emocionado, porque eu me dediquei 20 anos trabalhando no setor de gestão e quando você vê o açude numa situação dessas, e quando chega nesse momento crítico, nós estamos numa situação crítica. Você chegar aqui estar nisso que eu queria ver em 98 e a gente: “Não, vamos pedir a Deus que venha a chuva.”. E chegou a chuva. E hoje nós estamos aqui. Então, é um momento muito triste, mas que a gente tem que registrar, para que o poder público saiba o que é gestão. Porque isso daqui não venha um inverno e se acabe – desabafou.

Segundo ele, a falta de água no semi-árido brasileiro é um problema antigo e cíclico, mas, desafio maior que ter a água, é saber gerir esse recurso tão importante e essencial.

*Com informações da reportagem especial do programa Itararé Notícias

FONTE: Da Redação